sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O carriço do Vale de Muro




 

O carriço do Valedemuro

 

Ainda não tinham sarado as feridas morais, dores, medos e angústias da Primeira Guerra Mundial; ainda se respirava o ar  impregnado de gases incapacitantes e letais utilizados como armas pelos beligerantes; ainda se choravam os mortos, entre eles mais de dois mil portugueses que pereceram na carnificina de La Lys, utilizados como "carne para canhão" numa guerra que estava longe de ser deles, nem nossa, sequer parente; ainda os povos das pequenas e grandes nações ouviam os sobreviventes, tossindo e escarrando, gaseados, desprezados e sem aceitável modo de vida, reclamando por atenção, justiça e melhores condições; ainda havia bombas perdidas, trincheiras abertas cheirando a sangue, a pólvora e a cadáveres; casas em escombros, escombros de casas, campos devastados, destroços materiais,  sentimentos frustres, saúde irrecuperável, e já em toda a Europa ecoavam, em sopros de ventos americanos, notícias do grande descalabro financeiro e económico, jamais visto em todo o mundo. 

Começaram então a ouvir-se terríveis e até aí ignorados pelo homem comum palavrões e chavões como bolha económica, especulação, depressão, grande-depressão, quinta-feira negra, terça-feira negra, recessão, inflação, deflação, fluxos financeiros, produto interno bruto, bolsa de valores, bolsas de fome e miséria, lei seca, gangsterismo... E a economia global, sobretudo a da Europa, já de si bastante depauperada embora em lenta recuperação, ressentiu-se e voltou ao pino zero, dando lugar a emergentes governos salvadores, que logo se transformaram, primeiro em democracias musculadas, e logo em ditaduras de feroz  prepotência.

Foi fácil, então,  que os maiores demagogos, considerados como salvadores, ainda que sufragados por escrutínio popular, entre outros Mussolini, Hitler e Salazar, se apoderassem do poder nos seus países, e que em Espanha se abrisse uma fenda para o sucesso das falanges nacionalistas de Franco, apoiadas pelos camisas negras de Mussolini, por Salazar, que, quase sigilosamente, sob a capa de suposta neutralidade, enviou a ""temível e invencível" Legião Viriato. Contudo, o maior reforço foi dado pela aviação hitleriana, bem patenteada nos vários  bombardeamentos a cidades, sobressaindo os de Madrid e de Guernica, em Abril de trinta e sete, cuja horrorosa devastação viria a inspirar Pablo Picasso a pintar o famoso quadro com aquele nome, Guernica, que finalizou em Outubro do mesmo ano - 1937.

Quadro que depois deu lugar a um episódio tristemente pitoresco, quando, em mil novecentos e quarenta, já se combatia na II Guerra Mundial, um oficial de alta patente das tropas nazis, que haviam conquistado Paris, fora ver uma exposição do famoso pintor que decorria naquela cidade. Admirando com sabedoria e manifesto entendimento a soberba obra, terá perguntado a Picasso: “Foi você que fez isto”? . “Não – respondera de pronto o artista –, foram vocês, alemães!"...

Com as economias em perda e sem solução, o desemprego, a miséria e a fome em franca expansão,  era campo aberto para as ditaduras salvadoras, e as lutas intestinas não seriam mais do que um balão de ensaio para a Segunda Grande Guerra Mundial que eclodiu em 1939. 

Hitler apenas esperara pela consolidação da vitória franquista, deixando transparecer que logo que a "sua" começasse seria bem-vinda porque desejada (talvez se exagere, mas era, paradoxalmente, para alguns timoneiros das grandes potências, tida como um mal necessário). Seria apenas um pretexto para se lançarem na luta e com isso poderem debelar ou mitigar os males sociais e financeiros que julgavam já incuráveis. Alguns, com artimanhas políticas, diziam-se provocados para justificarem a entrada no conflito sem a ele serem chamados, outros procuravam-no através de controversas e estranhas alianças.

 

Foi neste plácido e prometedor ambiente que o mundo oferecia que, em Outubro de trinta e sete, a seguir ao atentado a Salazar que ocorrera em Julho do mesmo ano, e quando, fortuitamente, em Cebola, se vivia em paz e com dinheiro, resolvi nascer. Foi precisa muita coragem, confesso, mas, assim, o quadro Guernica não nasceu sem companhia! Não foi bem na povoação, diga-se, mas ao Valedemuro, naquela casa isolada, aos pés da Panasqueira, logo a seguir ao pontão da ribeira, junto à vereda que iniciava a subida para as Minas. Meu pai, que ocupava um lugar de destaque nos quadros da empresa mineira, tinha também uma casa a condizer, de privilégio, na Barroca Grande, onde vivia com toda a família, mas aconteceu que esse cargo  terminara e lá se foi a casa, mordomias e privilégios. 

Havia que regressar a Cebola. Como já tinha seis filhos, e o sétimo com pressa de vir ao mundo para pôr alguma ordem na bagunça em  que o mundo vivia, era urgente e necessário restaurar e ampliar a casita da Costa. Mãos à obra, pois! Mas, enquanto durassem os trabalhos, teria de arranjar um espaço para acomodar o seu agregado. O pior era que Cebola, naquele tempo, rebentava pelas costuras. As famílias eram numerosas e havia muitos recém-casados cuja única solução era ficarem a viver com os pais. Onde então? Havia lugar ao Valedemuro? Pois seria ao Valedemuro! Era uma instalação precária? Pois que fosse, mas era um abrigo, aliás transitório. Minha mãe estava grávida e ali me teve. Acho que não me queixei… da casa!

Tínhamos um cão, o carriço, que, encontrado abandonado junto à ribeira, logo foi adotado com todo o seu consentimento e contentamento. Segundo dizem, gostava do meu choro, pois passava largas horas deitado junto ao rule*, mas também aproveitava para dormir. 

Dormia… porque é bom… dormir!

Contava a minha mãe que certo dia, tendo-me acomodado, bem amamentado, fora ali ao lado, à ribeira, lavar uns trapos, vulgo cueiros. Deixara a porta entreaberta para o carriço entrar e sair; meu pai também andaria por perto ou estaria a chegar. De repente, o cão começou a ladrar… e em comportamento nervoso e desusado, correu até onde estava o dono, e numa dança estranha e inquieta começou a puxá-lo pelas calças e a bater-lhe com o rabo, dando pequenas correrias em direção à casa. Meu pai foi atrás dele, pois algo de insólito acontecia. Chegado a casa, o que viu? Uma cobra subia já o rule* em que eu dormia, com destino, certamente, ao local de onde provinha o cheiro a leite: a minha boca…

 

O texto que se segue, a negrito, cujo autor morreu em 1900 e é ainda considerado um dos maiores filósofos do Século XIX, foi publicado 50 anos antes dos acontecimentos da minha narração. Leiam, que embora já um pouco deturpado por ter sido escrito por um prussiano e por isso ter chegado até mim depois de  traduções em série – o prussiano ajustado ao  alemão para o inglês, do inglês para o brasilês e do brasilês para o português –,  é um fragmento duma obra mundialmente reconhecida, uma obra de beleza e valor incalculáveis, e é aqui inserido apenas por haver ligeira analogia nos factos, que não na alegoria em si, que essa, concebida por um génio, foi vestida de roupagem em forma de valores dramáticos, poético-filosóficos, com simbolismos abstratos tais  que eu nem em sonhos chegaria às suas franjas.

 

 

(…)

Assim falava eu, em voz cada vez mais baixa, porque me assustavam os meus próprios pensamentos e a sua oculta intenção, quando de súbito ouvi uivar um cão ali perto.

Ouvira eu já alguma vez uivar assim um cão? Os meus pensamentos tentaram lembrar o passado. Sim! Era eu criança, na minha mais longínqua infância, ouvira um cão uivar assim. E vira-o também, com o pelo eriçado, a cabeça erguida, trémulo, no meio da noite silenciosa, quando até os cães acreditam em fantasmas.

E tive pena dele. Acabara há pouco de aparecer, num silêncio de morte, a lua cheia por cima da casa: detivera-se com o disco incendiado, sobre o telhado, como em propriedade alheia.

Foi isso que despertou o cão. Que os cães acreditam em ladrões e fantasmas. E quando o tornei a ouvir uivar, tornei a sentir dó dele.

(…)

Encontrei-me de repente entre agrestes brenhas, sozinho, abandonado à luz da solitária lua.

Mas ali jazia um homem! E o cão, a saltar e a gemer, com o pelo eriçado — vendo-me a caminhar — começou a uivar outra vez, e pôs-se a gritar. Nunca ouvira um cão pedir socorro assim.

Nunca vi nada semelhante ao que ali presenciei. Vi um moço pastor a contorcer-se anelante e convulso, com o semblante desfigurado, e uma forte serpente negra pendendo-lhe da boca.

Quando vira eu tal repugnância e pálido terror num semblante? Adormecera, decerto, e a serpente introduziu-se-lhe na garganta, aferrando-se ali?

A minha mão começou a puxar a serpente, a puxar ...  mas em vão! Não conseguia arrancá-la da garganta. Então saiu de mim um grito: “Morde! Morde!

(Aqui, ó crentes, perdoai-me! Quando li isto pela primeira vez, eu, Constantino, pensei, aterrado, que o personagem estava a incitar a serpente para que mordesse no homem…, mas, felizmente, Zaratustra continuou):

 Arranca-lhe a cabeça! Morde!” Assim gritava qualquer coisa em mim; o meu espanto, o meu ódio, a minha repugnância, a minha compaixão, todo o meu bem e o meu mal se puseram a gritar em mim num só grito.

Valentes que me rodeais! Exploradores, aventureiros! Vós outros que apreciais os enigmas, se adivinhastes o enigma que eu vi então e explicai-me a visão do mais solitário.

Que foi uma visão e uma previsão: que símbolo foi o que vi naquele momento? E quem é aquele que ainda deve chegar?

Quem é o pastor em cuja garganta se introduziu a serpente? Quem é o homem em cuja garganta se atravessara assim o mais negro e mais pesado que existe?

O pastor, porém, começou a morder como o meu grito lhe aconselhava: deu uma dentada firme! Cuspiu para longe de si a cabeça da serpente e saltou para o ar.

Já não era homem nem pastor; estava transformado, radiante; ria! Nunca houve homem na terra que risse como ele!

Oh! meus irmãos! Ouvi uma risada que não era risada de homem... e agora devora-me uma sede, uma ânsia que nunca se aplacará.

Devora-me a ânsia daquele riso. Oh! Como posso eu viver ainda? E como poderei suportar agora o ter de morrer?"                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   

Frédéric Nietzsche in assim falava Zaratustra. (Visão do Enigma)

 (...)

Para satisfação do carriço, comigo não se chegou a esse extremo, já que meu pai, decidido pela aflição, correu para o rule e, sem pejo e sem qualquer receio, apanhou a serpente que segurou com força e, tal que nem uma funda para arremesso de pedras a grande distância, ou imitando um atleta lançador de martelo, deu-lhe algumas voltas no ar, entontecendo-a, para de imediato lhe esborrachar a cabeça na soleira da porta.

 

Com suprema alegria, o carriço fez o resto!...

O carriço do Valedemuro…

Boas Festas


* rule (rulo?)- antiga cama de embalar bebés em algumas localidades…

Constantino Braz Figueiredo

 

 









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