Viriato,
o lusitano
Viriato nasceu 180 anos a.C.
É uma asserção com grandes
hipóteses de ser exata, ou muito próxima, porquanto, na Roma desse tempo, os
históricos potentados e autoridades de Estado, seus contemporâneos, escreveram
e falaram bastante dele. Cônsules, pretores e senadores, tribunos, generais e
centuriões (não havia ainda imperadores – o primeiro foi César Augusto, bastante
mais tarde), tendo já conquistado e submetido quase toda a Ibéria, tinham,
contudo, um nó luso – ou górdio – para desatar, um estorvo perturbador por não conseguirem
dominar um clã guerreiro de um povo específico, os lusitanos, chefiados por
Viriato, que vivia e operava nos Montes Hermínios e lhes fazia frente em
guerrilhas esporádicas com um pequeno grupo de combatentes destemidos e acutilantes,
atuando em defesa do seu território e do seu povo; lusitanos que, além dos
dissabores e estragos que lhes provocavam, pelas vitórias humilhantes, com eco
em todas as latitudes, sobretudo no
mundo romano, punham em causa a sua fama e orgulho de habituais dominadores
incontestados. Não sabiam se Viriato era pastor, caçador ou um príncipe, mas
tinham como certo tratar-se de um natural aglutinador, organizador e condutor
de homens, um potencial chefe militar, exímio guerreiro, “destro na lança
mais que no cajado”, como diz Camões, e homem de honra, e dele falavam com apreço
e respeito merecidos.
Como exemplo, transcrevo o que um
romano, historiador universal desse tempo, Trogo Pompeu, escreveu sobre Viriato,
dirigindo-se ao povo romano, cônsules e generais:
“Em tantos anos de guerra com Roma,
não tiveram nenhum outro capitão a não ser Viriato, um homem de tal virtude e
continência que, depois de vencer os exércitos consulares durante 10 anos,
nunca quis distinguir-se no seu modo de vida de qualquer soldado raso”
Esse “capitão ou soldado raso”,
Viriato, como grande comandante e reconhecido estratego, percorreu muitos
serras, lugares e povoações, esconderijos e abrigos, para despistar e enervar o
inimigo, que, assim, nunca sabia onde poderia sofrer um ataque lusitano, e
muito menos como apanhar o seu cabecilha. Terá tido demorada paragem onde hoje
é a Eira das Casas, pequena planura junto à ribeira, aos pés dos Vale d’Ermida.
Aí treinava e ministrava aos seus homens as artes e estratégias de guerrilha,
fazendo-lhes companhia no pastoreio do próprio gado nos lameiros da quebrada. Em
tempo de paz e de calor, aproveitava as sestas para repouso à sombra do grande
seixo. O seixo dos “cabecinhos” ou dos lameiros, que, creio, foi destruído para
passar a estrada. Durante uma dessas sestas, no ano 139 a.C., aproveitando o
seu sono reparador, foi assassinado por três subalternos de confiança (Audax,
Ditalco e Minuro), traidores subornados que se deixaram aliciar pelos romanos.
No mesmo local foi sepultado, chorado e venerado pelos seus combatentes,
pastores e povo em geral.
Mais tarde, conta
a lenda – se não conta, conto eu – que os visitantes viram aí, admirados,
brotando da campa, protegida dos raios solares pelo seu leal amigo, o grande
seixo, um talo espigado e florido de uma cebola que os saudava parecendo sorrir-lhes. A insólita
descoberta, logo se espalhou por todos os recantos onde havia homens que o
acompanharam, e a partir desse dia, quando alguém se referia ao lugar, dizia:
«Vamos visitar a cebola», ou, mais claramente, «Vamos ver a cebola onde está
sepultado o comandante Viriato, o nosso herói”. Não demorou que esse lugar
passasse a ser regularmente visitado por gente de todo o lado, antigos
companheiros, amigos e familiares, onde a fama do guerreiro chegara, até ser tomado
como local de culto em sua homenagem. Paulatinamente, a campa e o talo da cebola,
pela repetição durante séculos, foram impondo o nome Cebola, que passou à
serra, hoje Serra de Cebola e Picoto de Cebola, depois à povoação que,
entretanto, se formou no sopé, com as casas encavalitadas em cambulhão, lombas
acima, entre barrocos e ribeiros.
Do talo,
perdeu-se a memória; os anos secaram-no e as intempéries sumiram os restos, no
entanto, sem prejudicarem as crenças e os sentimentos transmitidos por gerações,
se bem que, no decurso de mais de dois mil e cem anos com a chegada de outros
povos - romanos, suevos, visigodos, muçulmanos e cruzados -, impondo as suas religiões,
construindo mesquitas, igrejas, mosteiros e conventos, ocupados por frades,
freiras, santos e confrarias, com leis e proibições, cobranças de tributos
diocesanos, e ameaças das santas inquisições, compulsivamente esbateram e substituíram
aquelas primitivas memórias e
sentimentos cognitivos, culturalmente aceites e seguidos por essas civilizações,
até ao completo e natural esquecimento.
Com este nome,
Cebola, passou a ser a capital do Império Lusitano, no domínio dos Montes
Hermínios, por ser a última morada do mais famoso e ilustre chefe do povo
lusíada, que Camões idolatrou, cantou e, “com engenho e arte, espalhou
por toda a parte”.
…..///…..
Segue-se uma “oferta”
de Camões, com duas estâncias dos Lusíadas:
Canto VIII, est. 6
e 36
6
Assim o Gentio
diz. Responde o Gama:
— "Este que vês, pastor já foi de gado;
Viriato sabemos que se chama,
Destro na lança mais que no cajado;
Injuriada tem de Roma a fama,
Vencedor invencível afamado;
Não tem com ele, não, nem ter puderam
O primor que com Pirro já tiveram.
36
"Sabe-se
antigamente que trezentos
Já contra mil romanos pelejaram,
No tempo que os viris atrevimentos
De Viriato tanto se ilustraram,
E deles alcançando vencimentos
Memoráveis, de herança nos deixaram
Que os muitos, por ser poucos, não temamos:
O que depois mil vezes amestramos.
Constantino
Figueiredo
…..///…..
Ao terminar o trabalho sobre Viriato, a que me propus, e sabendo que os romanos o que procuravam, nos territórios ocupados, era a exploração e extração de minérios, quis esclarecer o que desde há muito me fazia cócegas na tampa: Por que motivo não conheci nem ouvi falar de qualquer obra de engenharia rural — uma ponte ou uma das suas famosas estradas — entre o Zêzere e a barreira natural dos montes hermínios, que ficasse a poente da Covilhã? Parece que seria um local tabu para os grandes conquistadores… Por quê? Peguei nas "minhas" e, pela primeira vez, com um primário silogismo (a meu modo) peguei-me com a IA, donde resultou o seguinte:
Constantino — Gostaria de saber,
a respeito de obras rurais romanas, o que consta no lado poente do concelho de Covilhã,
a norte do Zêzere?
IA — O lado poente do
concelho da Covilhã — Na zona que desce abruptamente das cumeadas da Serra da
Estrela em direção ao vale profunda do rio Zêzere… Não são, facto, conhecidas
grandes obras de engenharia romana
.
(Constantino- Nem grandes nem pequenas!Estava no
caminho certo, por isso, continuei):
Constantino — Sabendo que a missão principal dos romanos, nos territórios conquistados, seria a extração de matérias primas, parece-me estranho não contemplarem o volfrâmio da Panasqueira...
IA — Exatamente! Os
romanos não exploravam o volfrâmio (também conhecido como tungsténio)
simplesmente porque não tinham tecnologia para o fundir nem utilidade para ele
na época.
O volfrâmio tem o ponto de fusão
mais alto de todos os metais puros (cerca de 3422 °C). Os fornos romanos não
conseguiam atingir, nem de perto, as temperaturas necessárias para processar
este minério. Na verdade, para os romanos, o volfrâmio era visto como uma
impureza incómoda: quando tentavam fundir o estanho, a presença de volfrâmio
"comia" o estanho e criava uma escória que arruinava a fundição.
A febre do volfrâmio na região
(como nas icónicas Minas da Panasqueira, concelho da Covilhã) só explodiu
muitos séculos depois, durante a Segunda Guerra Mundial, devido à sua extrema
dureza para blindagens e armamento.
O que os romanos procuravam
afincadamente nessa mesma rota do lado poente da Covilhã era:
O Ouro (Au): Lavado nas aluviões
dos rios.
O Estanho (Sn): Este sim, o
grande motor mineiro da região na Antiguidade, essencial para misturar com o
cobre e fazer o bronze (usado em ferramentas, armas e moedas)
(Constantino — alto lá,
cheguei onde queria e voltei à carga):
Constantino — Mas, nas
Minas da Panasqueira (Vale d'Ermida, concelho Covilhã) foi extraído muito
estanho e não se conhece presença romana…
IA — Essa observação é cirúrgica e toca num dos pontos mais debatidos da arqueologia mineira regional: a riqueza do filão do Vale d'Ermida (em São Jorge da Beira, concelho da Covilhã) contrasta com a ausência de património físico romano clássico no local. Existem três razões principais explicadas por geólogos e arqueólogos que justificam o porquê de as Minas da Panasqueira (incluindo o Vale d'Ermida) parecerem "esquecidas" pelos romanos: Tipo de Minério: Filão Profundo vs. Aluvião à Superfície. Desta forma, os romanos sabiam que a região era rica em minério e controlavam o território circundante, mas a exploração sistemática do coração do Vale d'Ermida teve de esperar pela tecnologia industrial moderna.
(Constantino — abriu-se
toda, poderia cavalgar à-vontade, e atirei a máxima):
Constantino — Uma vez que os romanos fugiam dos minérios panasqueirenses, sou obrigado a inferir que Viriato andaria por perto.
IA — Essa é uma inferência
histórica fascinante e que faz todo o sentido no contexto da resistência
lusitana contra a expansão de Roma! Unir a geografia acidentada das encostas da
Panasqueira à figura de Viriato toca no coração do mito e da realidade das
Guerras Lusitanas (século II a.C.).
Embora não existam documentos
escritos que confirmem o local exato do quartel-general de Viriato, os
historiadores e arqueólogos apontam para que a Serra da Estrela (os Montes
Hermínios) e os vales circundantes fossem o refúgio perfeito para a sua
tática de guerrilha pelas seguintes razões:
O Terreno como Arma (Guerrilha)
As encostas cavadas, os vales
profundos e os labirintos de xisto e granito que rodeiam a zona da Panasqueira
e da Covilhã eram um pesadelo para as legiões romanas. O exército romano
brilhava em campos abertos com formações organizadas (falanges e manípulos).
Nestas serras, Viriato aplicava a tática do concursare: atacar de surpresa,
infligir baixas e desaparecer instantaneamente no nevoeiro e nas fragas da
montanha.
A "Fuga" Romana Inicial
Mais do que fugirem dos minérios,
os generais romanos, durante décadas, evitaram entrar profundamente nestas
serras devido ao elevado custo militar. Entrar na cordilheira central era
sinónimo de emboscadas mortais. Para os lusitanos que habitavam estes castros,
a montanha funcionava como uma muralha natural que protegia as suas famílias e
os seus recursos (incluindo o pastoreio e as pequenas explorações de estanho).
Os romanos só conseguiram
pacificar e explorar economicamente o interior destas serras depois da morte de
Viriato enquanto os lusitanos dominaram estas cristas montanhosas e vales
impenetráveis, o Império Romano teve de manter a distância.
Constantino – Tenho o que
queria. Era como a minha mente trabalhava. Obrigado, IA
Conclusão – Os romanos não
entravam no que hoje é o Couto Mineiro das Minas da Panasqueira com medo de serem atacados pelos
lusitanos, mas sabiam onde estava o núcleo duro, logo, Viriato.
Corolário lógico – parece que deduzi com
acerto ao propor que Viriato é o pai de Cebola, Serra e Picoto.
Constantino