O texto abaixo proposto é inteiramente fruto de conceito pessoal. Relata acontecimentos que, embora reais, não foram testemunhados ou diretamente vivenciados. O que se conta, são as impressões do que foi lido, ouvido e apreendido sobre esses factos históricos, com atenção, espírito critico e opinião própria, podendo dizer que, conquanto verdadeiramente não os tenha “sentido na pele”, foram conhecidos e sensorialmente sofridos.
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A Guerra fria e Gorbachev
— A decantada Guerra Fria terá sido idealizada e fomentada pelo ocidente para próprias vantagens, e, por maioria de razão, seguida pela Europa, com os habituais e subservientes motivos políticos, estabilidade e solidez económica, tornando-se morna e quase esbatida desde quando a defunta União Soviética foi enterrada com o Pacto de Varsóvia.
No entanto, atendendo aos procedimentos continuados dos políticos ocidentais, ficou provado que os inimigos não eram diretamente os ditos falecidos, mas o ancestral ódio inculcado e enraizado metodicamente, com precisão cirúrgica, mesmo antes do entendimento, durante séculos de dogmas concetuais, a que chamam “diferenças culturais”, ministrados por agentes obscurantistas, e sempre avivados pelos ventos que sopram de leste, trazendo-lhes os dolorosos gemidos e o choro de crianças comidas ou para o lauto pequeno-almoço em rituais canibalescos, e as ideias sofismadas ou cavilosas difundidas por religiões e acólitos, sobretudo em meios rurais, que espalhavam ser gente satânica que destruía e ateava os templos de práticas religiosas e queimava as suas almas.
Ainda assim, nunca houve — que soasse — acusação plausível ou credível por constrangimentos reais ou ameaças concretas, veladas, sequer implícitas, vindas de leste e direcionadas aos países ocidentais. Recentemente, essa Guerra Fria, terá sido alavancada com o “beliscão” da Rússia à Ucrânia, e, quando parecia já ultrapassada e quase esquecida, foi recuperada e reposta com grande efusão, novo estilo e subtileza, outros nomes e acusações, mas com o costumeiro radicalismo, pelos mesmos, e bem difundida pela conveniente prosápia de tradicional vassalagem dos bajuladores políticos, com a despropositada jactância dos média, ainda que apenas ou principalmente por imperativos editoriais, expressamente lecionados em aulas e reuniões doutrinárias de procedimento e metodologia, soberbamente burilados a troco de avenças majoradas, com especial enfoque na área audiovisual. Assistia-se, então, abusivamente, sem contraditório, a um sem fim de esmeradas, polidas e espúrias narrativas com deturpações do concreto, que intoxicam, falseiam, corrompem e moldam os conceitos e opiniões dos consumidores.
Contudo, sem prejuízo de interesses essenciais, sempre que surgisse oportunidade de exibir superioridade cultural ou afinidade com a erudição europeia, recorria-se, desbragadamente, como exemplo, à estafada, aberrante e bastarda palavra resiliência, cuja pedante pletora dos últimos sete ou oito anos tomou jornaleiros que a levaram a penates, onde a dissecaram, sufragaram e botaram em seus jornais e canais; de imediato foi assumida por catedráticos, mestres, professores e alunos e fez furor em recreios, ginásios, escolas e academias; de tal sorte que não poderia evitar ser gala de presidentes, amanuenses, porteiros, choferes, brigadas limpa-vidros e outras brigadas do reumático; como corolário, entrou e abrilhantou as solenes pompas circunstânciais de ministros e parlamentares que a metamorfosearam de resiliência para fastidiosa repelência, mirando cupidamente a almejada bruxelência…
Na falta de outra matéria relevante, tinham os ostensivos, oportunos e familiares jargões do “wokismo” exacerbado de que andavam possuídos, em tempos adotado e copiado da América, todavia versando outras questões sociais que não as de lá, mais ocupadas com os persistentes problemas e dificuldades causadas por seus confrades hispânicos e afroamericanos.
Entretanto, para que não lhes falte assunto, pão e modo de vida, já por perto se enxerga o desenvolvimento de outra insólita e medonha guerra — agora apodada de híbrida —, que terá como potenciais armas de arremesso as loucas ideias produzidas em satânicos gabinetes por génios lunáticos e megalómanos, com a ajuda da IA. Por ora, privilegiam acicatar as massas de outras nações, próximas ou distantes, para reivindicações e insurreições internas, com o propósito de mudar regimes políticos desviados, hostis ou conflituosos, para dóceis e maleáveis aos próprios desígnios e conveniências; subverter, dissimuladamente, através de forças internas subornadas ou por agentes especiais, o normal desenrolar de processos democráticos, manipulando, entre outros, os atos eleitorais; criar problemas económicos e aduaneiros, impondo bloqueios, boicotes, taxas e tarifas humilhantes; estimular as forças políticas concorrentes locais desses países com aliciamentos e pressões estratégicas, a fim de debilitar, ao arrepio das convenções universais instituídas, os poderes legalmente vigentes. Por se apresentar incipiente, camuflada de neutralidade, abstracionismo e ambiguidade, uma guerra assim, se a origem tiver convincente respaldo e dossel diplomático, militar, político e económico, tornar-se-á assustadoramente real, concreta e de eficácia devastadora.
Terminada a II Grande Guerra, e dando corpo a verdadeira epifania de alguém que se julgava com pirilampos na “tampa”, foi criada, quase de imediato, ainda decorria o Plano Marshall, uma aliança militar, a Nato, eufemisticamente dita para defesa dos países do Atlântico Norte – “defesa”!… há quem diga, à boca cheia, em trocadilho paroquial, “para defesa”, mas de um popular e simpático utensílio de cozinha —, com o pretexto e justificação preventiva de eventuais ou atrevidas veleidades do "papão” soviético, devido à sua poderosa e invencível demonstração de combate com que havia destruído o nazismo. Não perdeu tempo o "papão" soviético e estabeleceu o Pacto de Varsóvia para ter forças equivalentes que fizessem frente à Nato — o “papão” contrário...
O mal estava feito — ninguém, em qualquer situação, deve replicar asneiras…
Sem consideração pelos povos nem uns pelos outros, aproveitaram a florescente indústria do armamento, herdada das necessidades criadas nas beligerâncias anteriores, para superarem qualquer antagonista, e elevarem, em consequência, o prestígio e propaganda global perante os países de todos os quadrantes, promitentes próximos clientes, assegurando a reputação desejada, e, por acréscimo, grandes proveitos económicos ou financeiros. Promoveram mais estaleiros e fábricas, com técnicos de elevado gabarito e milhares de operários, a produzirem de forma crescente, para eles e para o mercado, com preços fixados na origem, sem direito a regateios, discussões ou reclamações, complexas armas para combate em qualquer espaço ou situação: naval, espacial ou tradicional; aperfeiçoaram e criaram progressivamente avançados modelos de supersónicos aviões, navios, porta-aviões, submarinos e multiplicaram as poderosas, temíveis e abomináveis ogivas nucleares, que disseminaram estrategicamente por países aliados de ocasião politica, futuros satélites por imposição, para servirem de esteios ou empórios de todos os materiais bélicos, logísticos e comerciais; apostaram e espalharam por todo o mundo sofisticadas e altamente treinadas e instruídas polícias secretas internacionais ou enigmáticos, sombrios e eficientes agentes de espionagem, zelando e garantindo o êxito de uma guerra novelesca, a afamada guerra fria, assim crismada, pejorativamente, para lembrar que o inimigo era o siberiano das frias estepes cobertas de gelo ou neve, de aquém e além Urais.
Simultaneamente, em compita desenfreada, género guerra estelar, anunciavam encher o espaço aéreo com satélites e sondas de investigação duvidosa, por vezes tripulados por animais, e outros aparelhos planadores, voadores e exploradores de misteriosos e longínquos planetas de todas as constelações e galáxias, e demais corpos celestes, bastando, para tanto, que luzissem e fossem detetados por inconcebíveis e poderosos telescópios. Com inusitada propaganda por todo o globo, divulgavam outros lançamentos, agora para hipoteticamente irem desfrutar o nosso satélite, tendo como principal escopo a exploração comercial de excursões e romarias, em prometedores encontros idílicos e românticos com a sedutora lua, a qual era suposto estar ansiosa e carente de "romeus" de sua mãe Terra, e pronta a franquear-lhes a entrada, depois de milhentos sonhos e trovas, odes, cantos e serenatas com juras de amor, influenciadas em bucólicos e convidativos lugares, sobretudo nas noites em que se enche de luz e cobre com o seu majestoso, exótico e deslumbrante manto de seda oriental, com evidente promessa deleitosa e apelativa.
Que deceção! —Terá pensado — Onde terão ficado os madrigais do Picoto de Cebola?
Ainda hoje a vemos bela e inebriante como sempre, mas desiludida, triste e cúpida, embora brejeira e provocante, mostrando a sua virginal e encantadora pureza.
Terráqueo vai à janela
Firma bem o teu olhar
E desfruta a noite bela
Que a lua te quer beijar
Enquanto os de lá, os rivais, por trás da "cortina de ferro" — desdenhosamente dita "muro da vergonha" —, pragmáticos, para olhar Marte de mais perto e melhor poderem receber instruções de tática e logística dos invencíveis guerreiros marcianos, transportaram materiais e construíram uma plataforma espacial onde viviam durante meses, até que fossem rendidos por outros camaradas, e aí, generosos, receberem convidados da concorrência, que chegavam e regressavam sempre à boleia dos “táxis” dos anfitriões, porque não tinham um “vaivém”. No entanto, sem resultados significativos (ou eram secretos?), visto nada contarem do que viram ou aprenderam. Outros voos, em surtidas para espionagem terrestre a países de duvidosas práticas, disfarçados no convencimento de que o objetivo principal da missão seria satisfazer o imaginário coletivo, dando as boas-vindas aos misteriosos ovnis carregados de extraterrestres vegas e seus vizinhos planetários e, como bons hospedeiros, fazerem gala da sua excelência protocolar na arte do bom acolhimento.
Até que, surpreendentemente, do nada ou do maior país do mundo, surgiu um carismático homem soviético, cuja careca mostrava um desenho natural, fruto do próprio sangue, que poderia ser tomado como imagem de uma ilha nórdica — talvez a Gronelândia!... Investido de aura incomum, poderes e prestígio de efeitos surreais, parecendo quase sobrenaturais, influente nos povos, instituições e governos de todo o planeta, tais que, grosso modo e laivos burlescos impostos pela natureza da impossibilidade para tal efeito, seria eleito presidente dos EU, conforme, ao tempo, foi noticiado com base em trabalho jornalístico e uma sondagem simulada aos eleitores americanos — tal era, aí, a sua popularidade —, um tal Mikhail Gorbachev que, cumprindo a sua Perestroika, resolveu pôr em prática os próprios desígnios reformadores com a descentralização ou apagamento do sistema socialista. Num estalar de dedos, começou por dissolver a União Soviética (a sua Rússia lhe bastava), devolvendo a autodeterminação a 16 ou 17 países, antigos possuidores, e eliminando, de imediato, o pacto de Varsóvia (mostrando à saciedade que não temia natos) e destruindo o muro de Berlim, donde resultou, para a Alemanha, a recuperação da sua tradicional capital, e a totalidade do seu território de antes da guerra - a chamada RDA (Alemanha de Leste).
Só que os ocidentais não tiveram a coragem de fazer o mesmo.
Porque não acabou então a Nato? Porque continuaram a expandi-la? Pensariam, por acaso, que estariam no tempo de Sua Santidade o Papa Urbano II, com ordens divinas e direitos transcendentais para cabal cumprimento e iteração das suas saudosas cruzadas? A resposta – a nossa, a popular e mais pragmática – só pode ser porque haviam criado impressionantes infraestruturas operacionais e administrativas, cheias de gabinetes com chefes, diretores e presidentes; escolas de oficiais, “fábricas” de generais, comandos, comandados e interesses económicos, pessoais e coletivos, dos quais tudo e todos dependiam; um status de colossal magnitude, uma empreitada épica quase inconcebível para cuja transformação e resolução, orgânica ou estrutural, muitos países nunca encontrariam a solução.
Nem vontade!...
Então, como sempre, deixou-se andar... que a América, o mais rico e maior interessado, vai pagando em proporção da potestade estatutária aceite e estabelecida, conceptual e incontroversa, até se comporem as coisas…
Mantendo-se, assim, a irrevogável e indiscutível dependência!
Não tardou que iluminados cérebros europeus, tomando por modelo e inspiração a União do Benelux, criassem a UE, construindo monumentais edifícios com espaços parlamentares, escritórios, sumptuosos gabinetes para deputados, diretores, líderes e presidentes, oportunidades, oportunistas, e outras posturas de infinitas vaidades, para daí espargirem leis, normas, regulamentos, promessas e… dinheiro, prenhes de proibições, compromissos e responsabilidades, protegendo, todavia, a caterva de “aspones” (“assessores de porra nenhuma”), clientela política associada, putativos dirigentes, que logo aderem como lapa à rocha.
Quanto ao grande Gorbachev, sendo unanimemente considerado de inteligência superior, não era, contudo, indefetível e, assim, uma ponta de ingenuidade, sempre apegada aos sages e honestos, ter-lhe-á escapado, daí a raiz da disrupção que permitiu a espertos patrícios, unidos e astutos, por trilhos ínvios, penetrarem as brechas das débeis trincheiras que não estavam preparadas para as provas de traição, maldade e falsidade, e tolher-lhe o prestígio, a fama e o natural empoderamento, varrendo-o injusta e liminarmente da História, até quase desaparecer da memória e citações, sem embargo de ter modificado pacificamente a geografia e organização de povos e nações. Apesar de tudo, ainda durante alguns anos, já sem qualquer cargo administrativo ou poder de Estado, foi convidado de honra de vários países para localmente fazer conferências políticas ou sociais. Em Portugal, prelecionou na Gulbenkian para os personagens ilustres, políticos e afins desse tempo. Aproveitando a ocasião da sua passagem por Lisboa, foi também solicitado para uma entrevista, em direto, num canal televisivo.
Então, porque foi ele proscrito? — “Santos da terra, cá, não fazem milagres”, assim se diz na minha cidade, Cebola, capital do império lusitano, nos Montes Hermínios.
Na Rússia, seu país, nunca lhe perdoaram a grandeza e superioridade inteletual, nem sobretudo a coragem de ter pulverizado o abrangente Império que a II Grande Guerra havia produzido e que ele, num ápice, reduziu ao tempo dos czares Romanov, mas que serviu, outrossim, para descarnar os sentimentos mais profundos do povo, e avivar a sua memória mesclada de dor e revolta, depois dos épicos combates que lhe custaram milhões de caídos. Disse milhões? Foram, sim, vários milhões…! Com o agravo de pactos, acordos e cedências à concorrência, que viu, desse modo, a oportunidade para se vangloriar de uma vitória “pírrica”. Já os do ocidente que o admiraram, receberam e aclamaram, os invejosos tecnocratas, instalados em seus confortáveis pedestais, eivados de mordomias, luxos e fúteis poderes, fogem de o referir, para fazerem crer que foram eles ou os seus antecessores que ganharam a guerra fria, pelo que não lhes era, e não é, de todo, conveniente falar deste mítico personagem.
Constantino Braz Figueiredo