Este simples escrito tem
por finalidade homenagear um mineiro que nos deixou, que me deixou, faz hoje,
dia dois de março de dois mil e nove, sessenta anos. A narração é de quando já a silenciosa sílica
ultimava os preparativos para consumar os seus desígnios. E é apenas uma
lembrança e oferta do tio aos quarenta netos de um tal Zé Maria.
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Mas, a despeito disso, ou talvez por isso, não recordo impaciência para qualquer divertimento ou para comer o que quer que fosse com tal desejo e ansiedade como a que me encorajava e impelia para um livro ainda que quase mendigado, porquanto, também e principalmente, jamais esqueceria o que a esse respeito, quando tornávamos da Covilhã do exame da quarta classe, ouvira meu pai dizer a pessoas que o felicitavam por ter dois “doutores” só de uma assentada, já que – admirava-se o povo – dentre tantos alunos, escola cheia, apenas três foram a exame e dois eram seus filhos, e o outro, um pouquinho mais velho, pertencia a família tida por mais abastada:
– Era para estar contente – disse com um sorriso mesclado de orgulho e apreensão –, bem sei, e estou, mas não satisfeito. Porquê?... porque me preocupa o que irá ser deles no futuro, sobretudo do mais novo que tem apenas dez anos… só teria a ganhar se ficasse na escola por mais um ano… bem instei quem de direito para que assim fosse, mas não fui atendido…. Qualquer dia morro, eles não vão estudar, e depressa, atendendo à idade, se lhes apagará da memória tudo o que aprenderam.
Por instantes ficou concentrado com o olhar fixo num ponto que só ele via, talvez meditando sobre os sombrios horizontes pejados de armadilhas e incertezas, talvez prevendo a brutalidade dos escolhos que nos esperavam, talvez avaliando o tempo de vida que lhe restava, talvez olhando a carência das coisas básicas necessárias e essenciais à nossa subsistência, talvez para um futuro sem futuro, talvez…
Parecia
ter-se esquecido que ainda quase se ouviam os foguetes comprados na
Panasqueira, tendo botado três à curva da capela, depois de pedir para a
carreira esperar, e outros tantos quando chegámos à ponte… Quando enfim voltou
à realidade, recuperando o momento, encarou de novo os interlocutores, mas o caminho e sentido do seu discurso, saído do mais profundo do seu ser, já não era com
eles… soava mais como um magoado protesto, traduzido num conselho, numa lição
dirigida a nós, a quem o ouvia… ao
mundo! Olhava-nos então com um semblante onde o sorriso já se extinguira,
severo, e sopesando parcimoniosamente cada palavra que, sem levantar a voz,
pronunciava:
– Agora ficais por vossa conta. Acabaram-se as aulas e os professores, e se não continuardes a exercitar a tabuada, a leitura e a redação depressa tudo esquecereis e este bonito dia não terá qualquer significado; será apenas uma lembrança inútil… Doravante, tudo deve ser aproveitado para ler e escrever; se virdes um papel velho de jornal no chão, numa valeta, sujo ou não, qualquer papel com letras, apanhai-o e lede-o e fazei por entender o que diz… para vós não será interessante, mas pode tornar-se muito valioso, mesmo que seja só pela prática da leitura e interpretação; não desperdiceis a mais pequena oportunidade para ler e principalmente para ouvir os mais velhos, e segui, por imposição própria e nunca descurada nem desviada, os conselhos e ensinamentos do mestre: aprender, aprender, aprender sempre…
Notável, este inlustre de Cebola!
A partir daí, tudo o que viesse à rede era peixe”, e o primeiro “peixe” foi nem mais nem menos que “Os Lusíadas” … Isso mesmo – os Lusíadas! Ainda não tinha doze anos quando o filho mais velho da minha mãe, o meu irmão Zé Gil, apareceu em casa com a monumental epopeia de Camões. Alguém lho emprestou com a condição e exigência de não o estragar. Assim, o Zé Gil, sempre cioso dos seus compromissos, imediatamente me preveniu de que ficava proibido de pescar aquela truta. Qual quê!... com um livro à mão, ali, limpinho, charmoso, apelativo, capa dura com estampa do autor, legendas gravadas… ia lá agora apanhar papéis sujos do chão!?...
Embrenhava-me então e devorava e adorava os versos, as estrofes ou estâncias, os dez cantos, a construção imortal! Embora não a entendesse muito bem, sentia-me, no entanto, grato e regozijava-me por ser um dos raros, um eleito a quem foi concedida tal graça, e só me lembro de pensar como é que alguém podia ter tal arte e sabedoria...! E tive sorte acrescida já que era um exemplar editado com todos os cantos, enquanto que, naquele tempo, o “canto nono”, aquele da Ilha dos amores…
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Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.
Oh, que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã, e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo. (*)
..., estava interdito no ensino liceal, daí que os livros aprovados fossem antecipadamente mutilados pelas editoras, de acordo com diretrizes governamentais salazaristas.
O segundo veio logo a seguir e foi lido a meias com um amigo, ao Rodeio, nas suas scaleras; líamos ao mesmo tempo porque o livro também não era seu e tinha prazo para o devolver. Era “A Rosa do Adro”, de Manuel Maria Rodrigues, escrito em 1870. Livros e conteúdos parecidos não eram… de todo... mas acho que me fez bem. Ao menos serviu para despertar a puberdade e imaturas qualidades e sentimentos que ainda se encontravam envoltos em manto de natural inocência, e muita ingenuidade para não lhe chamar ignorância…
Quem me dera amar um dia,
Ter amor, ter afeição.
Ser escrava, dar a vida
Por um terno coração.
Se tu queres amor, ó bela,
Eu te dou amor bem puro;
Se tu juras ser só minha,
Será belo o meu futuro. (**)
Notável o Zé Maria, que partira...
Constantino Braz Figueiredo
(02/03/2009)
* Camões – Os Lusíadas, canto nono, estâncias 82 (final) e 83
** Quadras colhidas no livro referenciado,
citadas de memória de 60 anos
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