domingo, 1 de dezembro de 2024

O almocreve da serra

 

O almocreve da serra

Este fabuloso episódio, imemorial, assomou em misterioso e impreciso dia, envolto em poeira difusa como lenda burlesca, pretensamente escrito por raio ou corisco de malévola e surreal redação, a jeito de lacónica e desportiva informação: Almocreve, 0 – Cigana, 1. Da alimária não houve mais notícia, apenas é suposto ter ficado com o burro do compadre ou alienada por míseros avos à cigana.

  

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De uma aldeia vizinha, um pouco mais a norte, desafiando a canícula que naquela tarde abrasava o Vale do Ceira, surgiu a pé um rapagão de indisfarçável robustez, vulgo matulão, conduzindo pela arreata uma mula, sua companheira inseparável e indispensável a uma atividade que não escolhera de bom grado, mas apenas por carência de melhor opção, à qual, apesar de tudo, se dedicou de corpo inteiro e até com algum êxito. Já bem no interior da povoação, Ceiroco, parou junto à única tasca existente, frequentada sobretudo por trabalhadores que, no verão de 47,   terminavam o túnel destinado a conduzir um caudal de água “roubada” ao Rio Ceira – acessório requerido para melhor abastecer a barragem de Sta. Luzia. Acomodou a mula à sombra de um prédio contíguo e, não só por grande necessidade, mas também por avitos costumes, eufemisticamente ditos culturais, a pretexto de breve convívio, entrou na tasca e foi tomar uma bebida refrescante, talvez um pirolito, talvez uma laranjada marca Estrela, produzida em Cebola, fábrica Covita, com água pura e cristalina, brotada da mina particular e exclusiva, adrede furada nas faldas da Fraga Alta.

Enquanto isso, atendeu uma cigana que por ali circulava vendendo a sua arte, no legítimo ensejo de captar algumas moedas dos trabalhadores do túnel, acedendo também a que interpretasse o significado das linhas da sua mão (lhe lesse a sina). A cigana, sagaz e, pelo hábito, conhecedora do egotismo humano, falou de tudo o que ele mais queria ouvir – felicidade, prosperidade, saúde, amor, mulher linda e cinco filhos –, mas, às tantas, querendo apimentar um pouco tamanha sorte, como castigo por ver regateado o preço do seu serviço, acrescentou que morreria velho… quando a sua mula largasse três flatos num só dia. “Ó diacho!... Três num dia?!” Podia ser que tivesse sorte. A mula. quanto a isso, até costumava portar-se bem. Se fosse um macho já não apostava, os machos costumam ser mais… mais alarves, de desbocada flatulência, e depois a cigana fora bem clara ao dizer que isso só aconteceria quando já fosse velho.

Pensativo, mas confiante, lá saiu de Ceiroco rumo a Cebola, seu destino primeiro e principal (se sobejassem alguns artigos e tivesse tempo ainda iria à Panasqueira), subindo a serra mais o animal bem carregado com a mercadoria indispensável à efetivação dos seus negócios – uma ou duas sacas de carvão, um odre de azeite, mel e afins.

Para se atingir a vereda a norte das Meãs, a meia encosta do picoto, que conduz à portela de Cebola, a subida não é muito alta, mas bastante íngreme, empinada, e a mula lá vinha, devagar, sem incentivos nem pressões. De quando em vez resfolegava, mas enquanto fosse só pela frente tudo ia bem…dava para enxotar as moscas! Até que chegou a um ponto, teimosa (nascera de um cruzamento de jumento com égua), recusou-se a andar sem tragar o seu habitual quinhão de forragem. Comeu um pouco, mesmo sem ser alijada da carga, e prosseguiu mais confortada. De repente, sem que o dono esperasse…lá vai disto, o primeiro flato!  “Bom – disse para si o homem – também estamos quase a meio, é melhor descansar um pouco”. Pararam então durante alguns momentos à sombra de um pinheiro, ficando a mula de pé com a carga em cima do lombo, sem que lhe fosse oferecido uma carqueja, sequer uma pedra para se sentar. Não estranhou; já estava avezada a estas simpáticas deferências…

Retomaram a subida.

Logo após o recomeço, a mula, já cansada, farta do peso, do calor, e da subida, disparou o segundo, ainda mais forte que o primeiro. Deve ter-se ouvido em Ceiroco e ecoado por todas as terras do vale do Ceira… Se a barragem de Santa Luzia já existisse, teria causado um tsunami pelo menos de meia polegada! Aí o almocreve achou que a coisa não estava para brincadeiras e arrependeu-se de ter dado ouvidos à cigana, e jurou que jamais se meteria com tal gente; e disse para os seus botões, ou para a brisa que passava ou para a sua besta de carga, que nem que se peidasse mais cem vezes ele teria medo do que diz alguém que ganha a vida só a assustar os papalvos. Ele não era desses!... Nunca! E tocou a mula. Vamos depressa sua pileca dum raio…sua ciganita feia e enjeitada!

A mula não deve ter gostado do incentivo e ficou com cara de quem não deve nada a ninguém. Feia, hein? Ela que, quando estava bem disposta, sem o sacana do trabalho de escrava a que era submetida sem piedade, ela que, quando arranjada e escovada a preceito, quando considerada e acarinhada, era capaz de contentar três jumentos e dois cavalos!... E ainda deixava alguns machos, babados, esperando!... Feia e enjeitada ela? Ela, filha daquela linda égua e de um garboso jumento arraçado de garanhão?... Ela? Não mede as palavras! Já ia ver!

Entretanto o dono, apesar da fanfarronice de há pouco, não parecia muito tranquilo, e passou para trás da mula como que para vigiar e controlar as saídas, olhando as contrações do orifício, umas vezes lentas outras mais apressadas. Não gostava nada do que via. Começou então a ficar desconfiado e preocupado.

Suava das mãos, da cara; sentia comichão nas costas que depressa passaram ao pescoço, a todo o corpo; um mal-estar generalizado causado pela ansiedade, o nervosismo, o pânico. Quis acalmar-se pensando que tudo iria correr bem, que faltava pouco para atingir o cume do monte, depois era quase plano até à portela e da portela, sempre descendo, um pulo. Será que ela aguenta? Será que não? Será?…

Até as moscas já tinham abandonado o ânus do animal.

Pelo sim pelo não, era preciso tomar uma atitude preventiva. Impunha-se medida adequada. Para grandes males, grandes remédios, sempre ouvira dizer. Os grandes homens são os que, imbuídos de destemor e coragem, conseguem ultrapassar as maiores vicissitudes! E foi possuído de inabalável volição que, qual general de campanha, estratego napoleónico em Waterloo, vendo a derrota quase a consumar-se, decidido, estroncou uma pernada de pinheiro e mandou avançar, como um esquadrão de lanceiros, o canivete que na véspera afiara, e rapidamente fez um taco que enfiou no buraco traseiro do animal para servir de tampão.

A mula ficou ainda mais incomodada, não só pelo que lhe doía, mas também porque aquilo lhe fazia falta para ir libertando os gases. Nem só os pulmões precisam de respirar, as tripas também, à sua maneira, claro! E, naturalmente, a jumentóide, forçando os músculos anais, ia empurrando a rolha para fora. Sempre atento, o homem empurrava para dentro. Para fora… para dentro; para fora… para dentro. Já não se distraía nem prestava atenção a outra coisa. Ia aflito e, mais de perto, olhava calculando ao milímetro a saída do taco. “Aguenta, tem coragem mula linda, és a melhor mulinha do mundo; quando voltarmos dou-te comida fresca e levo-te ao jumento do compadre… – sabia como ela adorava o burro do compadre… – vá, mais cinquenta metros e atingimos o cimo”. Mas qual linda, qual mulinha, qual comida fresca… e depois o seu namorado que esperasse que ela agora estava aflita e tinha de resolver sem demora um problema de capital importância!

Chegara a hora!

A situação tornara-se insustentável, não podia mais! A sua barriga começou a inchar como um balão… só havia uma escolha: ou o bandulho ou a rolha; ou ela ou o dono. De súbito, travando e fincando bem as quatro patas no chão, procedeu como a sua natureza e instinto de sobrevivência ordenaram - conseguir força e concentração suficientes  para expulsar os gases atrasados, forçadamente acumulados, congestionados, aquecidos e comprimidos que, uma vez livres, explodiriam como uma bomba "anatómica", e o sopro sairia violentamente em turbilhão e tudo à frente levaria, incluindo o taco disparado com velocidade meteórica, um míssil desse tempo, à queima-roupa, que apanharia o homem na cabeça, fulminando-o instantânea e irremediavelmente!…

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O meu burro sabe tudo

Um pouco mais do que eu

Pensará o orelhudo

Que sou dele e não ele meu?

 

Constantino Braz Figueiredo 





quarta-feira, 21 de setembro de 2022

 

 

O vermelho versus O verde

 

Foi a descoberta do carmim e ocre vermelho, cuja beleza ofertada pela natureza seduziu as civilizações do período neolítico, que as levou a   produzir a cor encarnada ou vermelha ou carmesim, tanto faz, a qual, depois, as viria a favorecer em múltiplos trabalhos - atividades lúdicas e culturais,  diversões e entretenimentos, e outras de índole criativa como as pinturas rupestres encontradas em grutas e cavernas, depois descodificadas por técnicos de arqueologia e hoje transformadas em locais de explorações económicas, onde são admiradas e celebradas por milhares de visitantes para simples conhecimento ou por grupos de jovens das instituições de ensino  para estudos laboratoriais ou académicos.

Utilizada também nos mais variados e prestigiados ornamentos em móveis e artes funerárias, tumulares ou sepulcrais, que no antanho eram os maiores acontecimentos, revestindo-se de capital importância sentimental e social e celebrados com solenidades e disfarces vermelhos apropriados, dando lugar a rituais de grande pompa e aparato, planeados e preparados com o tempo e os aprestos coloridos a condizer.

 A partir de então manifestou-se grande interesse e admiração pela excêntrica quão sortílega tonalidade que depressa foi adotada como a preferida, pela inquestionável atração e por se acreditar no estimular da energia pessoal, e incentivo à coragem e à paixão.

Com a proliferação natural e primazia na sua escolha logo foi utilizada em ofícios e trabalhos de lazer e aproveitada no bem-estar, conforto espiritual e bem sentir, provocando o charme e a alegria nas festas, eventos e comemorações. Poderosa, era grande aliada nas vitórias em batalhas e pleitos de qualquer cariz e grau de importância, daí a sua conotação com Marte, o planeta vermelho, o deus da guerra. É uma cor quente que pressupõe o sangue, o coração humano e a chama que mantém vivo o desejo e o impulso sexual. Alenta e enobrece a sensualidade nas relações de amor dos apaixonados. Favorece o sistema nervoso e a circulação sanguínea; eleva a autoestima e o orgulho, assim como o espírito de conquista.

É um luxo; é o luxo!

Tapetes e vestimentas ornamentais vermelhas são as mais utilizadas nos grandes eventos da alta burguesia, sejam profanos, pagãos ou religiosos. Reis e imperadores eram – e ainda o são – coroados vestidos e rodeados por decorações têxteis e mobiliárias com a cor vermelha, a rainha da ostentação.

É do conceito popular e geralmente admitido, porque foi assegurado por estudos acreditados, que as reações das pessoas se tornam mais justas, rápidas e clarividentes em ambiente vermelho. Talvez por isso, seja aceite e considerada como a cor da justiça.

É ainda a cor da liberdade e dos movimentos operários, e transversal a quase todas as bandeiras do mundo que representem nações ou organismos da maior à mais pequena amplitude.

Aproveitando a base que servia para o arranjo, composição e aperfeiçoamento de instrumentos para a prática de magias de desenvolvimento intrínseco e de costumes ancestrais nestes povos, ministradas por diabólicas figuras trajando de sacerdotes do além, enviados por Lúcifer com as cores infernais, que consistiam em conceituados fatalistas, convertidos e travestidos de sinistros, temíveis e respeitáveis feiticeiros tribais, para intimidar e afugentar inimigos físicos ou os poderes ocultos e espíritos malignos que, não suportando esta cor berrante e altamente aguerrida, ficavam furiosos, loucos e desesperados. Tanto assim que, ainda hoje, as atávicas e frustradas descendências poderão sentir-se desconfortáveis, mesmo algum pânico só de o mirar, transbordando então o recalcado complexo da sua essência que os assolou de  ódio destilando veneno e, tal como os touros, perdem o tino e controlo, mostrando a natural sanha e ameaçadora ferocidade. (*)

(*) - O escrito e o estilo são totalmente da autoria do subscritor. Algumas informações foram colhidas no Google e adaptadas ao texto.



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E o verde?

O verde é lindo!

O mal foi a sua usurpação, à guisa de exclusividade grotescamente abusiva, cometida pela Sociedade Curraleira de Pedantes, dos valados, para gáudio dos fiéis seguidores e louvor dos seus ilustres alcaceteiros. Não obstante, o verde continua lindo. Certo verde agrada à vista, até a mim, calcule-se… é, pelo menos, o que parece, mas se, como dizem, o inferno é vermelho, o verde, mesmo belo, também nunca será um céu.

Senão vejamos:

Imagine-se o que um velho amigo me contou:

- Vivia para a ver - dizia-me, nostálgico -, sonhava com os beijos daquela linda mulher, que faz tempo me atraía e encantava, com lábios vermelhos, apelativos, carnudos e sensuais. Mas um dia, inopinadamente, surgiu-me com eles perversa e ostensivamente pintados de verde! Que pecado! - Uma cor fria e desencorajante a ultrajar essa beleza... Se calhar produziu-se para impressionar qualquer osga!... Ao ver aquilo fiquei nauseado, triste e desiludido e, sem hesitar, saí de cena. 

Em verdade, reportando o crer  e sentir tradicional de raiz popular, adquirido pelo empírico conhecimento ao longo de milénios, transversal a toda a humanidade, que lhe atribui intrínseca crueldade, veneno e traição, o verde é, também e com total propriedade, tido como comida de vaca e habitat natural de frenéticos e truculentos vermes, estância privilegiada da fidalguia, em solidário convívio com bizarras, pirosas, quão ferozes e viscosas lagartixas, eivadas de pesado sofrimento, e por demais complexadas pela sua baixa condição e assumido estatuto de rastilhantes(?) perpétuas, por não terem, malgrado o seu empenho e bem conhecido esforço, a  sonhada e de há muito prometida metamorfose que as transformaria em elegantes e vistosas jacarés.

Não interessa, pois, desperdiçar tempo em análises minuciosas, escalpelizando debalde a propaganda estéril, pueril ou inócua da cor verde, que, por interesses claros ou inconfessos, é conotada com crenças românticas e airosas esperanças, árdua e habilmente incutidas nos crédulos e ingénuos com promessas nunca cumpridas; não importa que tíbios e híbridos poetas, de pacotilha, pautados na complexa psicose de infindáveis recalcamentos existenciais, que o triste e persistente fado dos perdedores inspira, versem apócrifas ladainhas e fabriquem fantasias para impressionar, chegando a fazer crer no alto poder do verde para abrir o céu, portas e janelas e escancarar voluptuosa e generosamente lindas pernas e sedutoras balizas.


(**) Este pequeno texto, relativo ao verde, foi escrito há algum tempo e tratava, inteiramente, de fictícia e pretensa rábula que tinha por objetivo ridicularizar um guia de sequazes por verdes ervas daninhas. Uma vez expulso o guia ou timoneiro, o escrito perdeu o sentido original, pelo menos todo o conteúdo. Foi então mutilado e adaptado, mantendo o estilo e o propósito de ficção, embora de menor abrangência

(?) rastilhantes - Termo que não consta do dicionário. Foi lido e tomado de JCP in “Balada da Praia dos Cães”, onde figura como qualificativo ou alcunha do lagarto Lizardo, mascote da personagem principal, inspetor-chefe da PJ, Elias, o Covas.

 Constantino Figueiredo

 

 

sábado, 23 de julho de 2022

Violas e Tubas/Flautas e Pandeiretas

 


É velha a história de quatro violas braguesas oriundas dos valados, que se exibiam acompanhadas de poderosa e arrasadora tuba, sendo hoje lembradas e impingidas até à saciedade com a costumada bazófia, transbordando jactâncias tediosas sem limites, quase insultantes. Só tocavam música saloia, género “pimba”, caseira, incipiente, mais parecendo as famosas sonatas da “charanga do compadre”.

Relativamente, nesse tempo, facilmente se impuseram e dominaram, há que dizê-lo; melhores que os concorrentes de cá e de então, é indiscutível, mas só caseiramente, intramuros,  porquanto estes apenas tocavam pandeiretas, ferrinhos, adufes e concertinas. 

Não há registo de feito positivo nos contatos com a estranja, quer em pleitos de seleção quer nas suas pelejas com agremiações argentinas convidadas ou em digressão pela Europa. Em representações internacionais «refastelavam-se» com10 da Inglaterra, da Espanha e, em causa própria, contra os argentinos não houve melhoras. Estes, apenas com os tradicionais e ancestrais instrumentos chiriguanos, taikas, charangos e pilagas, brindaram-nos, em concertos harmoniosos, com inolvidáveis sinfonias de tangos bem ensaiados e sublimes acordes. Tanguearam-nos e mimosearam-nos, aqui, no seu reduto, com sete e oito, reduzindo-os àquilo que era, naturalmente, a sua verdadeira essência:  nadir, zero!

 Que vergonha!

Bem me lembro de um saudoso e conceituado relator comummente conotado com os valados quando, no relato de uma destas contendas com o S. Lourenço de Almagro, gritava com alguma desilusão e tristeza: falta um quarto de hora, os argentinos, já satisfeitos, brincam, tocando a bela música na sua quinta e de lá, entretidos que estão, não lhes apetece sair.

 Que baile! Que gozo!

Alguém se lembra daquele ataque composto por Michael, Ceconato, Lacásio, Grilo e Cruz? Sim, eram eles os charangos, taikas e chiriguanos; não violas e tubas…

Mas, situemo-nos no tempo:

Tinha acabado a II grande guerra. A Europa ainda cheirava a pólvora e quase ainda não se tinham extinguido os ecos de canhões e bombas lançadas a partir de fevereiro de 1945 pelos aliados, USA e Inglaterra, sobre os centros das cidades alemãs e nipónicas, bem no centro para causar maior impacto. Cidades indefesas pelo desenrolar da guerra, sobretudo Hiroxima e Nagasaki, com armas atómicas, e os bombardeamentos a esmo a Dresden, onde já só se encontravam doentes, velhos, mulheres e crianças. Só aqui pereceram pelo menos 25 mil civis, e a cidade ficou completamente arrasada e destruída.

Por cá, embora não tivesse havido bombardeamentos, sofreu-se e sofriam-se ainda os efeitos comuns de proximidade, com os estilhaços sociais e económicos que causaram, por alguns anos, muitos danos ao país e à população, tais como carências de artigos de primeira necessidade, que obrigavam à aquisição de senhas e cupões para, em filas intermináveis, comprar géneros alimentícios, incluindo o pão; racionamentos por decreto e, até, bolhas de manifesta miséria e alguma fome.

Tempos de contrabando 

Tempos de candongueiros

Tempos difíceis.

Foi em espetro de semelhante contexto que a maioria dos participantes opositores foi angariada nos modestos grémios, associações de aldeia ou de freguesia - Casas do Povo e Centros Populares de Recreio, Cultura e Lazer; disputavam apenas jogos de rua, sempre com acesa e bem viva rivalidade, muito brio e vontade, é certo, mas menos aptidão; vulgarmente apodados de “solteiros e casados”. Bairro contra bairro, aldeia contra aldeia, vila contra vila, em campos pelados, quantas vezes com charcos de água ou lamaçais se estiava; os equipamentos eram obsoletos, rudimentares. Botas desajustadas e com travessas, quando havia disponibilidade, senão, como recurso, era   utilizada vestimenta própria e o calçado costumeiro - botas com brochas de aço, galochas, tamancos, ou sapatos domingueiros.

Raramente treinavam, já que o tempo e energias eram gastos em trabalhos na lavoura, pedreiras, em fábricas, minas, oficinas, escritórios, etc., donde quaisquer estatísticas de resultados e desempenho desse tempo só abusivamente - e pouca-vergonha - podem ser comparadas com as que hoje são conseguidas. Até o maior, o glorioso, com um ataque mais modesto – dizia-se -, sem igual tuba, mas com prestimoso cornetim, alguns pífaros e flautas, muito amor, dedicação e entrega, marcou, no mesmo ano, noventa e nove; o cabotino invejoso sofreu 40, o glorioso 47.  Por isto se pode avaliar o que eram as estruturas para apoio e desenvolvimento, as táticas, estratégias e a qualidade dos participantes.

Portugal só começou, enfim, a ganhar e a ser conhecido e reconhecido quando «bateu» a Inglaterra por 3/1, mas já com José Águas que marcou os três. E os clubes portugueses só conseguiram algum relevo e evidência depois do Benfica ter ganho a taça latina. É aqui, pois, indesmentivelmente, que se inicia a marcha para a grande revolução e transformação do futebol português. É aqui que se inicia, reitero, pois que o conceito e a consolidação ainda iriam demorar alguns anos…

 Investigue-se.

Depressa se chegará à conclusão de que isto de violas dos valados é o maior embuste do futebol lusitano. O riso complacente nacional e internacional dos entendidos.  Só chegou a este estado porque quem o inventou e difundiu foi o próprio treinador ou diretor técnico que era o fundador e dono do maior jornal desportivo de então, e que, recorrendo a bajulice para impressionar e contentar os pupilos e os seu sequazes, ali, que sendo propriedade sua ninguém o proibia, repetiu a lisonja em parangonas, para bem se interiorizar. Paradoxalmente, até era adepto benfiquista, sócio e antigo jogador do glorioso durante vários anos...

Olha se tivessem «aquele» (o “pipi”) que marcou quinze golos só em finais da Taça de Portugal… Foi obra!

 Obra gloriosa!…

 Na verdade, o melhor ataque que Portugal já teve – a temível “máquina infernal de fazer golos” – era composto por José Augusto, Santana, Águas, Coluna e Cavém, que atingiu 103 golos num campeonato, e o Benfica, com este ataque, foi campeão europeu um ano antes da chegada do Eusébio. Estes sim, estes merecem ficar gravados para a posteridade da História do futebol português. Com encaixes de verbas significativas, exibiram-se por convite em todos os continentes.  Conquistaram o terceiro lugar no campeonato do mundo (1966), tendo sido o ataque mais goleador, agora já sem Águas, Santana e Cavém, mas com Torres, Eusébio e Simões em sua substituição. São os chamados magriços. 

Uma curiosidade que, lamentavelmente, não é salientada onde e por quem o deveria ser, sobretudo pelos interessados: o Benfica foi bicampeão europeu só com jogadores nacionais! Pasme-se…, mas isto é uma verdade factual, incontornável e histórica. Seria orgulho para qualquer país porque é feito único! Nem o Real Madrid com grande e inigualável palmarés, mas foi conseguido com a ajuda de Di Stefano, uma das maiores estrelas argentinas de sempre. 

E.T.  – Se for detetada alguma imprecisão, que será difícil porque o que ficou dito foi vivido, basta dizer que, se reconhecida, será de imediato corrigida.

Constantino Braz Figueiredo


 



segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Cebola, sempre...

 

Cebola, sempre...

 

… e eterna será a serra, sua mãe, que orgulhosamente sustenta o  famoso picoto, "o Picoto de Cebola", e serve de respaldo à pequena Serra do Açor, cujo ditame atemporal da construção  cósmica lhe grudou  como lapa à falésia. 

Recentemente, manifestando  interesses duvidosos, estranhos e controversos, subvertendo e invertendo as indestrutíveis leis da natureza, os valores  históricos e geodésicos, alguém tentou  agregar e subordinar a  majestosa Serra de Cebola àquela colina,   que apressadamente a abocanhou e "açorou" como ave de rapina, numa ilegítima promoção de subversiva oportunidade, aproveitando-se  do  descabido esponjar do nome  Cebola, causado por alguns infelizes estranhamente insatisfeitos com o milenar nome  das suas raízes, e que, vazios de senso e  consenso, nesciamente  traíram, em lamentável desprezo pela memória coletiva, valores e costumes ancestrais. 

Desconsideraram o princípio básico universal de que o nome de seres e coisas, sobretudo das pessoas e dos lugares onde nasceram e viveram, fossem cidades, vilas ou aldeias, será sempre a sua identidade, indissociável da personalidade, grandeza ou importância. O nome  é a  essência e a alma, o coração e orgulho que lhe arroga a reputação e o prestígio adquiridos perante as gentes de povoações próximas e conhecidas, pelo que não poderia eliminar-se só porque um pequeno grupo de patrícios,  de castrado caráter e timidez associada, se sentiria intolerável e singularmente provocado ou pejorado. 

Como foi possível?  

Escorados no convencimento de que tinham conhecimentos académicos que os colocava acima dos outros conterrâneos, facilmente os manipularam e conseguiram os seus intentos. Hoje, no entanto, está provado que não passavam de subalternos intelectuais – do que eles, aliás, nem sequer suspeitavam! A despeito disso, a Serra não entrou nesse pacote, felizmente. Todavia, há quem pense o contrário. Mas, se nada ficou escrito acerca da alteração do nome da serra, nem do picoto, se não há prova, oficial ou outra, de que o seu nome tenha sido também extinto, será  um insultuoso abuso de confiança varrê-la arbitrariamente do mapa.

Mas a culpa maior será do desinteresse das entidades administrativas do Concelho que tendo a sua Estrela, a maior, se estão marimbando para terras e serras menores, olvidando e não vindo a terreiro defender o carismático nome da serra de Cebola (ou «serram de Zebola» e «serram de Sebola», como se dizia no tempo dos reis Afonsos e Sanchos) e promover aquilo que lhe pertence e está historicamente lavrado nos cânones militares e administrativos nacionais e internacionais. Devo realçar um pormenor que dá conta da antiguidade da povoação. Como se vê já está escrita com maiúscula no século XII - Sebola e Zebola. Ora, não há dúvida que se referem à povoação e, a ser verdade, Cebola se calhar é mais antiga que Afonso Henriques. Estou convencido que sim, não me custa admiti-lo.

Era Serra de Cebola, era picoto de Cebola que lhe chamavam os habitantes de então, depois também os nossos reis, toda a nobreza, clero e o povo, pobres e nobres, caçadores e pastores. Imitem o procedimento do concelho vizinho, que não contente com a pequenez da sua colina, com calculado oportunismo, espúria e bastarda ação absorveu a serra e picoto mais alto, hoje secundado pela cumplicidade de alguns renegados seguidistas dos quais sobressai a teimosia desvalida de um moicano, pear tree fred, herdeiro dos subalternos intelectuais de há mais de sessenta anos, um cabotino que deveria mudar-se para a Fórnea ou Covanca e levar a sua querida ave de rapina mais o patrono da jarreteira, dos jarretas, se, por acaso, lá, não lhe impedirem a entrada.

Do mesmo modo, a sede do distrito, que mais virada está para as lezírias e planícies ribatejanas, montes e planuras alentejanas, assobia para o lado e deixa subverter e mesmo riscar da cartografia militar, principalmente da geodesia cósmica, a Serra de Cebola, que é - sempre foi - a maior e mais importante deste lado dos Montes Hermínios.

A este propósito, refira-se que já houve outros que nos sonegaram o lendário Viriato e seus guerreiros lusitanos que aqui lutaram, venceram e enxotaram, lá para as terras de augustos, neros e césares, os   soldados, geólogos e pesquisadores de ouro romanos.

Passou a haver, ou sempre terá havido, regionalistas bacocos, fanáticos chauvinistas caseiros interessados em tomar para si, para a sua terra ou região, não só as serras mais altas, mas também a figura e os feitos do grande chefe Viriato sem saberem ao certo onde aconteceram, confirmando, outrossim, que a subjetividade capou a verdade…

– “Ai é dos montes hermínios? Então é nosso” - disseram, sem provas provadas, aqueles das «choupanas» lá de cima de outro concelho;

 - «Ai é dos montes hermínios»? - Perguntaram-se nuestros hermanos da serra morena, do Ebro ao Guadalquivir e outras terras espanholas - «Então é daqui».

No entanto, fazendo fé no que já foi escrito e publicado por estudiosos da história antiga, Viriato e os seus guerreiros lusitanos viveram e lutaram aqui, onde hoje é Cebola e a Serra de Cebola. Assim, assertamos nós, com tanta legitimidade e talvez com maior propriedade que a de qualquer chico-esperto que fala do que não sabe:

«Viriato foi um chefe guerreiro lusitano que viveu e lutou nos Montes Hermínios, ou seja, na Serra de Cebola».

 Estou certo? Todos temos razão? Teremos! Ou ninguém tem?…

Viriato nasceu 180 anos ac. Na Roma desse tempo, escreveu-se e falou-se muito dele. Imperadores, pretores e senadores, tribunos, generais e centuriões, tendo já conquistado e submetido quase toda a Ibéria, tinham, contudo, uma pedra no sapato, um estorvo incomodativo por não conseguirem dominar um clã específico, os lusitanos chefiados por Viriato, que operava nos montes hermínios e lhes fazia frente em guerrilhas esporádicas, pondo em causa o seu orgulho de dominadores incontestados. Admiravam-no, sem saberem ao certo se era um pastor, caçador, se algum príncipe, mas era incontroverso  que se tratava de um grande chefe, um exímio guerreiro e homem de honra.  Conta a lenda – se não conta conto eu – que esse homem, como grande estratego, percorreu muitos lugares, muitas serras e muitas terras, para despistar o inimigo. Terá tido demorada paragem onde hoje é a eira das casas e pastoreado o seu gado nos lameiros da quebrada. Fazia, em tempo de paz, longas sestas em repouso à sombra do grande seixo. O seixo dos cabecinhos ou dos lameiros, que, creio, foi destruído para passar a estrada. Numa tarde, aproveitando o seu sono reparador, foi aí mesmo assassinado por um subalterno da sua maior confiança, um traidor que se deixou aliciar pelos romanos. No mesmo local foi enterrado, chorado e venerado pelos seus combatentes, pastores e povo em geral. Mais tarde, os visitantes viram aí, assombrados, brotando da sepultura, o talo já alto e florido de uma Cebola que os saudava, sorrindo-lhes. A partir desse dia, quando alguém se referia ao lugar, dizia: «Vamos visitar o Cebola», ou simplesmente: «Vamos ver a Cebola onde está sepultado o nosso comandante». E assim nasceu o nome de Cebola, hoje proscrito.


Entretanto, o Picoto de Cebola, sempre magnânimo e pronto a perdoar, alheio ao embuste perpetrado, olha lá de cima, reparando como realmente é bela e encantadora aquela colina que há milhares de anos, talvez milhões, se encosta a si em busca de proteção e amor.

Mira então, embevecido, aquelas pitorescas aldeias e lugarejos xistoides do Piódão, Covanca, Fórnea, Malhada Chã... Embora com pesar, mas com peculiar simpatia e benevolência, vê uma ave de rapina que voa entre s. pedro e o colcurinho - é o seu campo, é o seu terreno -, comove-se e murmura: 

- Ó colina linda,  não me faças mais cócegas, contenta-te com o teu açor e...  cresce e  aparece.

Constantino Braz Figueiredo

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Será, pois, altura de apresentar um documento, que «pesquei» no Google,   bastante elucidativo e sem margem para dúvidas: 

«5 – Serra de Cebola -  1418 m

Situada na cordilheira da Serra do Açor tem o seu ponto mais alto o Pico da Cebola ou Picoto da Cebola com 1418 metros. Muitas vezes este picoto é dado erradamente como o ponto mais alto da Serra do Açor. Esta definição está errada.

O Picoto da Cebola fica localizado na Serra da Cebola junto da Serra do Açor. Por fazer parte da cordilheira do Açor, habitualmente incluem-na como fazendo parte desta Serra, mas essa informação não está totalmente correcta. A carta militar nº 244 do Centro de Informação Geoespacial do Exército que nos serviu de base tipográfica, demonstra inequivocamente esta situação.

Tem no alto dos picos vizinhos vários aerogeradores de alta tensão e um bolembreano de 3.ª Ordem.»

Ponto com maior elevação: Picoto da Cebola

Coordenadas: 40.181710, -7.809086

Carta Militar n.º 244

Tipo de Vértice Geodésico: Bolembreano de 3ª Ordem. http://aeiou.expresso.pt/novos-sítios-descobertos-nas-serras-de-cebola-e-do-açor=f476868#ixzz1odMCe1tQ

História 

(trecho copiado da google)

«.... refere que a jusante do Cabeço do Gondufo, próximo da antiga Catraia das Aguaceiras, desfila a serra de Cebola, hoje conhecida pela "Serra do Picoto", onde se teria dado a grande batalha das tropas romanas, comandadas pelo "General Gondufo", com Viriato e a sua cavalaria onde este saiu vencedor, com a derrota dos soldados romanos».

 50º aniversário da extinção do nome Cebola:

  "Hoje temos vergonha de CEBOLA?. Claro que não. CEBOLA sempre e para sempre" - São as palavras que terminam a notícia do corajoso Sérgio, aquando do acontecimento em apreço.  - Cebola.net  

 

Referências à Serra de Cebola. Nos inícios do Século XVI (1503/1507) aquando da vinda dos frades à região para verificação do estado dos bens da Comenda e no relatório que fizeram refere-se:

"(…) e leva hà lomba sempre afundo atee hás portas da muda e de hi se vay direito aa cabeça de cebolla e de hi vay sempre pella lomba a fundo atee há portela do sueiro que he ao ponente e de hi se vai por cima da Ribeira das aradas direito aa cabeça cambam e leva há lomba dos cambões honde vay teer toda afundo antre ho bodelham e hos cambooes e de hi se vay direto aa pedra dos andoriscos que he dentro no zezer e vaisse pelo zezer acima atee há foz do ourondo onde começou e isto he ao sul.



Repare-se que já em 1207 Cebola  (e isto merece atenção)  se escrevia com maiúscula (Zebola ou serram de Zebola e serram de Sebola), donde se infere que Cebola seria já um povoado.

                                       (...)

Mais referências à Serra de Cebola. 

Nos inícios do século XVI (1503/1507), aquando da vinda dos frades à região para verificação do estado dos bens da Comenda e no relatório que fizeram refere-se:

Notificetur tam presentibus quam futuris quod ego Sueiru Fromariguiz divino spiraculo erudictus ideo in mea bona salute et nullo me cogente sed spontanea mea voluntate do et concedo ad Mansionem Templi ipsam meam populationem que dicitur (21v) Casegas que est in termino coviliane do eam populatam et inpopulatam ruptam et inruptam per omnes terminos sicut currit aurondo de ipso rivulo quomodo vertit aquas ad Ozezar deinde sicut dividit cum Aerada et etiam sicut tendit ad serram de Zebola usque ad sumum. Do ibi eam pro anima mea atque remissionem peccatorum meorum et pro bono quod michi semper fratres eiusdem mansionis fecerint et ut me in suis beneficiis recipiant igitur ex hac die mansio templi habeat ipsam supranominatam populationem cum omnibus suis terminis sicut superius sunt ostensi e cum omnibus suis directis et si aliquis venerit tam de meis quam de extraneis vel ego venero aut filii mei venerint qui hoc donum et hanc cartam violare voluerint sint maledicti usque in septimam generationem et cum diabolo pereant usque in sempiternum. Insuper quamtum inquisierit tamtum ad mansionem templi in duplum componat et quantum fueirit melioratum et iudicatum et pro sola temptatione pectet centum morabitinos. Insuper hoc donum et hec manda stet firmiter in perpetuum.

Facta he carta mense augusti era Mª ccª X (L)ª Vª, Ego supranominatus qui hanc cartam fieri iussi coram bonis hominibus eam propriis meis manibus roboravi et confirmavi.

 Constantino Braz Figueiredo


 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A Forja e o Ferrador





Há alguns anos, quando ainda escrevia e postava textos quer de índole pessoal quer  relativos a Cebola no  bem conhecido e conceituado “Sítio” Cebola-Net,  conterrâneos – “Fina da Mina”, “CBP”, Vítor, etc. – lembravam aí coisas que em tempos idos tiveram vida e marcaram as nossas gentes, entre as quais o antigo tronco de Cebola e seu dono e ferrador, de quem diziam ter grande aptidão para “calçar os bois fortes” da aldeia. Tomei então a liberdade de produzir, jocosamente como gosto, em devido tempo e lugar, o arrazoado que a seguir transcrevo, por me parecer que terá algo a ver com os atuais jogos  olímpicos que decorrem em Inglaterra, sobretudo com as provas de hipismo (o  grande desporto de massas que apaixona multidões!) das quais, há pouco,  numa esplanada se transmitiam imagens televisivas, sintomática e  paradoxalmente sem entusiasmo ou interesse de quem estava ou por ali passava,  e que eu apenas mirei de soslaio com sarcasmo condescendente:




“Se me é permitido meter a ferradura em tronco alheio, direi que o tronco do ti Alfredo Ferreiro, ou Ferrador, era em terreno coberto – pista coberta  (não gostam do trocadilho?).  O atletismo sempre foi um dos meus desportos favoritos, por influência de sempre ter tido um fraco (ou um forte?) pelos desportos. O Ti Alfredo, bonacheirão e solteirão assumido, casou com o seu tronco e com a boa vinhaça das irmãs Silvina e Patrocina e era, acima de tudo, um profissional internacionalmente reconhecido; é certo que tratava e cuidava dos bois mais fortes e capazes, mas nunca recusou tratar os bois fracos, apesar de tudo. Ensinava a arte para que os vindouros a pudessem usufruir. 

Não chegou ao Prémio Nobel nem às Olimpíadas de inverno, sequer de verão, e também, diretamente, às pistas do hipismo de competição inglesas, originárias das famosas apostas - estas tinham, e têm, outros ferradores mais bem pagos, mas está lá, acreditem, o espírito e o saber do grande calçador de cavalos, como de toda a burrada e bois fortes de Cebola; e, como ele, têm troncos em área coberta e são todos grandes artistas, embora aprendizes do Ti Alfredo "Chanão", o FERRADOR. Calçam bem, a preceito, com rigor - ferraduras douradas, prateadas, bronzeadas ou arco-íris, sempre com a dignidade do mestre. 

E não me penaliza crer que os seus melhores discípulos é que ganharão as corridas. Tal como os mecânicos de automóveis. Os melhores, leve o tempo que levar, ganharão sempre. É a lei da vida, a lei da Natureza! Ou não fosse a Ferrari, de ancestrais ferreiros, ferradores e ferragistas, uma das mais conhecidas e conceituadas marcas de carros que vagueiam por estradas e autoestradas e, sobretudo, campeiam nas corridas de automóveis,  tendo por símbolo um exemplar cavalo, calçado a condizer…

Constantino, Um  Talo de cebola"



segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Sobrenome Figueiredo



 

A origem deste sobrenome está ligada a uma lenda atribuída a um ato heroico, talvez histórico, pretensamente ocorrido perto de Vouzela, junto ou mesmo dentro de um figueiredo,  por volta do ano 783 ou 784, no tempo do domínio mourisco.

De guerreiros lusitanos, companheiros de Viriato, já só restavam descendentes e históricas lembranças  esbatidas pelo tempo, e o mesmo se poderia dizer dos usurpadores romanos que foram enxotados pelos guerreiros de origem germânica, os alanos, suevos e visigodos, que gradativamente foram anexando todas as possessões do Império Romano do Ocidente, até que os mouros ou sarracenos, oriundos do Norte d’África, em cruzadas de expansão comercial e propagação da doutrina de Alá invadissem a Península Ibérica e passassem eles próprios a dominar quase todo este vasto território. Eram também de religião islâmica, mas nada se pareciam com aqueloutros do oriente que professavam a mesma fé, os seljúcidas, bárbaros, cruéis, de uma selvajaria atroz – pilhar, incendiar, matar sem qualquer comiseração era o seu lema. Estes, ao menos, eram cultos e civilizados e comportavam-se com alguma compreensão, dando mostras de aceitação para com os povos dominados e até com eles se misturando e convivendo desde que cumprissem as leis impostas, leis, no entanto, que eram por vezes estranhas e bem difíceis de aceitar por gente de cultura ocidental e prática cristã.

Mas, como todos os conquistadores, tinham as suas exigências e não abdicavam dos espólios, tributos e vassalagens a troco de tácita e hipócrita tolerância. Sabidos!... Muito sabidos. E uma dessas dolorosas e socialmente inaceitáveis imposições do Emir de Córdova, Abderramão (mais tarde os sucessores seriam califas), foi ter decretado cobrar aos vencidos um tributo de 100 donzelas anuais! Imagine-se!... Não era parco a exigir este varrão palaciano!... Estava mal habituado! Inconformados com essa absurda exigência, os fidalgos e o povo ibérico revoltavam-se, resistiam sempre que eles iam cobrar esse tributo, mas quase sempre em vão.

Porém, de uma vez em que os mouros conduziam seis raparigas para entregarem ao emir, num figueiral (ou figueiredo), nas imediações de Vouzela, eram discretamente observados por um destemido fidalgo, Goesto Ansur, natural da zona de Lafões, que por ali andava à caça. Ao ver tamanha ignomínia investiu contra os mouros espadeirando tudo o que mexia – mouros ou mouriscos e árvores que se atravessassem. Quebrada a espada na refrega, pegou num galho de figueira e, tanganhada praqui tanganhada pralá, conseguiu levar de vencida a escolta maometana, logo devolvendo as chorosas e inconsoláveis meninas aos seus pais, excepto a mais bela, filha do dono do figueiredo, pois que, como ali constava, já era a sua prometida – justificação mais que suficiente para tanta procura de “caça” e maior coragem e força desmedida. Quanto aos mouros, tristes, rotos e feridos, foram devolvidos ao emir com a seguinte legenda escrita em pele de bode: las ninas som nosas; se vos apela ordenay vossos hombres en busca de figos, em el figueiredo hay  muytos.

Será mesmo uma lenda? Será, mas os habitantes de Figueiredo das Donas têm muito respeito por ela e crêem, honestamente, que terá alguma verosimilhança com a   realidade, a avaliar pelo documento que “tomei por empréstimo” do seu site, o qual guardam com orgulho e religiosidade, e que será, segundo o dizem, o primeiro poema conhecido no território que só viria a chamar-se Portugal trezentos e cinquenta anos depois…

 

No figueiral figueiredo

a no figueiral entrey,

seis ninas encontrara

seis ninas encontrey,

para ellas andara

para ellas andey,

lhorando as achara

lhorando as achey,

logo lhes pescudara

logo lhes pescudey,

quem las maltratara

y a tam mala ley.

 

No figueiral figueiredo

a no figueiral entrei,

vuma repricara

infançon nom sey

mal ouuesse la terra

que tene o mal Rey

seu las armas vsara

y a mim sse nom sey.

Se hombre a mim leuara

de tam mala ley,

a  Deos vos vayades

garçom ca nom sey

se onde me falades

mais vos falarei

 

No figueiral Figueiredo

a no figueiral entrey.

Eu lhe repricara

amim sse no irey,

ca olhos dessa cara

caros los comprarey,

a las longas terras

entras vos me irey,

las compridas vias

eu las andarey,

lingoa de arauias

eu las falarey.

Mouros se me vissem

eu los matarey.

No figueiral Figueiredo

a no figueiral entrey.

 

Mouro que las goarda

cerca lo achey,

mal la ameaçara

eu mal me anogey,

trocom desgalhara

troncom desgalhey,

todolos machucara

todolos machuqey,

las ninas furtara

las ninas furtey,

la que a mim falara

nalma la chantey.

No figueiral Figueiredo

a no figueiral entrey

 

 

 Mais tarde, como homenagem por aquele acto de bravura, o fidalgo foi agraciado com direito a Brasão de Armas e sobrenome Figueiredo, e aquele local, sendo já um figueiredo ou figueiral, passou a ser habitado e a chamar-se Figueiredo das Donas, em homenagem às meninas, ex-futuras favoritas dos grandes emires, sultões e califas, salvas in extremis pelo tal Ansur.  E o nome do local e o da terra que aí se fundou atravessou séculos e permanece intacto e bem defendido de algum mentecapto que quisesse impor o nome de qualquer orago ou vinho do Dão…  Por analogia, como era uso nesse tempo, a todos os moradores daquela localidade foi concedida a faculdade de usarem o apelido Figueiredo ou “de Figueiredo”, tal como fora conferido a Goesto Ansur de Figueiredo.

A partir daquele ato todos os familiares de Ansur – o herói - passaram a usar o sobrenome Figueiredo, mas a genealogia dessa família só é encontrada com um seu quinto neto,  de nome Soeiro Martins de Figueiredo, conforme registos datados de 1211 e 1245, do tempo dos reis de Portugal D. Afonso II e D. Sancho II.

Figueiredo não deriva, pois, de figueira nem de figueiral; um figueiredo é o mesmo que um figueiral, e uma figueira é apenas uma unidade de um figueiredo ou de um figueiral, portanto está longe de ser o mesmo que oliveira em relação ao olival, de pinheiro a pinhal ou de bananeira a bananal. Considere-se, assim, que um Figueiredo – agora já como nome, por isso escrito com maiúscula – contém toda a floresta, é um todo, um figueiral, enquanto oliveira, por exemplo, é apenas uma unidade de um olival… ou, dito de outra maneira, nunca poderemos tomar um Silva por um silvedo, nem uma figueira por um Figueiredo. Quanto a vós, ilustres cebolenses, e não só, se quiserdes figos procurai um figueiredo… ou figueiral!...

Constantino Braz Figueiredo