Coisas de meados do século passado
Tertúlias de aldeia
Alguns,
vindos de recessos distantes da nossa aldeia, aqui já instalados e com a vida assente, presenciavam, mas por natural timidez ou desconhecimento não ousavam participar nas
pacíficas, alegres e animadas discussões
em que, amiúde, os nativos de Cebola se
envolviam, ficando, todavia, como peixe na
água se qualquer atrevido, brincalhão, em jocosa e subtil provocação,
abria um tópico baseado no quinto império do sapateiro Bandarra, profeta beirão,
sobre ocultismos com almas penadas ou errantes peregrinos do mundo das trevas
que por aí, supostamente, vagueiam à deriva, invadindo intrusivamente os sonos
de pacatos e serenos crentes e de outras despertas, mas ingénuas, frágeis e
influenciáveis vontades. De pronto se empertigavam, tomando posição para entrar
no paleio, e então, com entusiasmo, era vê-los narrar, à vez, como se fossem
reais, adivinhações, enigmas e estórias macabras de danças demoníacas ao redor
de grandes fogueiras em matas cerradas e tenebrosas, com bruxas de cabelo
eriçado e vestes garridas, excitando auspiciosos e sedutores esqueletos de
defuntos, uns armados de tochas com vistosas labaredas, manobrando cajados
incandescentes, outros
Contavam
de velas, velórios, carpideiras, caixões e enterros, que depois se generalizavam em atávicos ou empíricos conhecimentos sobre sinais dos
tempos, apocalipses e juízo final − abracadabras, segredos, ocultações,
premonições, revelações, presságios, agouros, predições e profecias; mistérios,
falsos profetas, anticristos, sombras e assombrações; fantasmas, delírios,
enguiços, fétiches e fantasias; grutas, catacumbas, masmorras, guinchos de
vampiros e uivos de lobisomens; corvos a grasnar, cadáveres, estripadores e extirpadores com grandes e afiados caninos; luas
vermelhas, tapetes, mantas e vassouras a voar com bruxas ao leme, acolitadas
por encarapuçados chifrudos brandindo negras forquilhas; portelas cruzadas por veredas com frescas
pegadas de monstros anteriores ao tempo das cavernas; espantalhos, talismãs, mascotes e amuletos;
morcegos, sapos e gatos pretos; extermínios, facas, sangue e alguidares;
sustos, estrafegos, maus-olhados, mezinhas, mixórdias, raspa d’unhas e chinelos
de trança; espíritos malignos, figas,
feitiços, juras, pragas, superstições, predições e maldições; iluminados,
espíritas, médiuns, curandeiros,
videntes, carochas e feiticeiras; possessões, reencarnações, exorcismos,
curas e benzeduras; blasfémias, sacrifícios e imolações; perjuros e
esconjuros; t’arrenegos, cruzes-canhoto,
belzebus e mafarricos – lagarto-lagarto, vade-retro satanás!
Um
rol sem fim…
Mas
desta vez teve porque, cansados de tanta discurseira aberrativa e sem proveito,
foi atalhada pelo mesmo atrevido cebolense (de Cebola), que aqui viu ensejo
para fazer alarde da sua arrogada e conceituada erudição.
−
É estranho, no mínimo curioso – começou −, porque não falam de Fausto, um
médico alemão, mago, alquimista e visionário que, segundo o livro com o mesmo
nome, de Wolfgang von Goethe, chegou a fazer um pacto com o demónio,
Mefistófeles, ao qual entregou a alma em troca de sucessos, riquezas e prazeres
inenarráveis? Nem viram por lá o patife Rasputin, prestidigitador-charlatão de
renome, conselheiro, amigo e frequentador dos paços da czarina Alexandra? Ou a
heroína francesa, Joana D’Arc, queimada na fogueira pela santa inquisição, com
o rótulo de bruxa? E da Farronca, uma lenda utilizada nalgumas terras do Norte
como papa-crianças para as assustar? Podiam também falar dos cavaleiros da
távola redonda, prosélitos do rei Arthur
e da sua meia-irmã, Morgana, a terrível
feiticeira dos bosques onde pernoitava Robim e passava Lancelote para os seus
idílicos serões em Camelot; ou do profeta Zaratustra, sábio e mágico persa,
criador da doutrina de Zoroastro, personagem de todas as literaturas de
práticas éticas, que pregou e separou o Bem do Mal, cujos dogmas e preceitos
religiosos foram mais tarde abeberados ou copiados pelo judaísmo e cristianismo; não
esquecendo, ainda, o poderoso guerreiro das arábias, sultão Saladino, senhor de
sumptuosos palácios das mil e uma noites, das mil e uma lendas e sonhos onde, ao vulgo,
só à própria imaginação era concedida entrada, sempre cheios de numerosa corte
de aduladores e libertinos príncipes e princesas, sibilas, oráculos, pajens
e paladinos, odaliscas, fadas e
favoritas, além da usual e indispensável caterva de convidados para faustosas
festas, com orgias, caçadas e bacanais, aproveitadas para grandes negócios particulares
e de Estado entre ricos comerciantes das
rotas da seda, os influentes xeques, califas e emires, e ainda com tempo, o
grande Saladino, para comandar exércitos e vencer Ricardo Coração de Leão,
malogrado comandante da armada cruzada, enviada pelo Papa à terra santa para anexar Jerusalém. E onde andariam, nesse
tempo, os imperadores e conquistadores europeus Alexandre, o magno
macedónio/grego, na infância aluno de Aristóteles, e o franco Carlos Magno,
neto de um prefeito de palácio, Pepino o Breve, com as suas incontáveis legiões
de guerreiros e séquitos de profetas e conselheiros?
−
Apenas observamos temas pela rama para conselho e ponderação – continuou –
e reiterar que, mesmo sem recurso a
devaneios ficcionais ou à evocação de respeitáveis e saudosos defuntos, a
fantasistas bruxarias e assombrações, mas lendo livros, muitos livros,
sobretudo sobre a História dos Povos e Nações – está lá tudo –, poder-se-á a
falar de seres que, a priori, parecem lendas fabulosas, símbolos
ou astros, mas que sendo reais, tocáveis, com vida, foram ou são como qualquer
de nós, a quem a existência e circunstâncias ocasionais deram estatuto
invulgar, fazendo-os diferentes e especiais devido a prodigiosos atributos
adquiridos muitas vezes anormalmente, pela sorte, pelo berço, educação, estudo,
e, até, com ajuda da imaginação humana que, deslumbrada, os admirava, seguia e
neles acreditava. Depois, o carisma natural, a fama, a aura e prestígio são
como uma bola de neve, crescem à medida que as gerações vão transmitindo as
suas espantosas e inacreditáveis obras, proezas ou façanhas alcançadas nas
letras, artes, inventos, descobertas, realizações e conquistas, para gáudio,
proveito e deleite dos povos ulteriores que as contarão, por sua vez, aos
próprios descendentes, através da fala, da escrita e de todos os outros meios
de comunicabilidade.
E
terminou, acrescentando:
Aos
livros de história, podem e devem juntar outros livros temáticos ou empolgantes
romances, com páginas repletas de literatura fascinante escritas por grandes
mestres, portugueses e de outras línguas bem traduzidas, sobre assuntos
específicos, vidas e pessoas quase sempre ficcionadas, onde o interesse pelo
enredo e encanto literário os prenderá até ao fim, servindo não só de
prestimosa ajuda na ocupação de tempos lúdico-didáticos, mas também de
enriquecimento cultural.
Sem
palmas nem ovação, voltava o silêncio, e a retirada, de fininho, um a um, para as tarefas habituais, seus ofícios, suas artes.
Constantino Braz Figueiredo
(trecho rearranjado, faz parte do post
“Detrás de Serra” – neste blogue)